‘Wetland Francês’: Atualizações e Novas Adaptações para o Saneamento Municipal no Brasil – um Update!

O atendimento aos municípios de pequeno porte segue como um dos maiores desafios para a universalização do saneamento no Brasil. Observar como outros países enfrentaram esse problema pode trazer lições valiosas.

Um exemplo marcante é a experiência da França, que, desde os anos 1990, investe de forma consistente na implantação de uma tecnologia específica de wetlands, conhecida como o “Sistema Francês”. Vale destacar que o forte respaldo científico do instituto INRAE teve papel decisivo tanto na validação da tecnologia como na sua adaptação para climas quentes e na disseminação internacional. As duas últimas conferências da IWA sobre Wetlands, a ICWS 2022 em Lyon e a ICWS 2024 na Martinica, foram um testemunho claro dessa trajetória.

Mas, até que ponto as experiências francesas realmente podem ser relevantes para o Brasil? O que sabemos, de fato, sobre o desempenho dessa tecnologia em nossas condições? Como, quando e por que seria indicado adaptar ou variar o conceito? E porque esse foco no sistema frances –  as demais tecnologias de wetlands para o tratamento de efluentes, ainda têm espaço e relevância?

Acompanhe este post e fique por dentro das novas soluções de wetlands e do quanto a experiência francesa pode contribuir para o saneamento municipal no Brasil.

 

1. “Sistema Francês” ou, mais corretamente, “Wetland de dois estágios verticais”?

Vale uma breve lembrança histórica: até os anos 1990, os wetlands para tratamento de esgoto doméstico na Europa eram, em sua maioria, filtros de areia, com escoamento vertical ou horizontal. Como tratamento primário, predominavam as fossas sépticas e suas variações. Entre esses dois tipos de escoamento, na América Latina os wetlands horizontais acabaram sendo vistos como a opção mais “simples” e ganharam mais espaço, frequentemente utilizando brita como meio filtrante e operados de forma saturada. Além disso, foram incorporados outros tratamentos primários, como os tanques Imhoff (Hoffmann et al., 2011 – Fonte 1).

No entanto, a dificuldade de manutenção desses pré-tratamentos foi um dos principais obstáculos à expansão bem-sucedida dos wetlands. Em contextos descentralizados, a operação regular dessas unidades tende a ser relativamente exigente e, não raramente, a retenção e a gestão dos lodos acabam falhando. O resultado é previsível: colmatação dos wetlands, acúmulo de lodo e de efluente na superfície, mau odor… frustração e decepção!

O diferencial do Sistema Francês foi justamente eliminar esse problema ao introduzir um 1º. estágio de wetland capaz de reter e tratar o lodo do esgoto na superfície. As fases controladas de carga e repouso asseguram a secagem e a oxidação eficiente dos sólidos, promovendo sua mineralização. Como 2º. estágio, manteve-se o filtro de areia de escoamento vertical, necessário para garantir a nitrificação completa exigida pela legislação francesa, mesmo em pequenas ETEs. 

Esse conceito (Figura 1) solucionou, na França, a lacuna no saneamento para pequenos municípios e impulsionou, até 2015, a instalação de cerca de 4.000 ETEs desse tipo, atendendo populações entre 500 e 4.000 habitantes (Lombard-Latune & Molle, 2017 fonte 2). Levantamentos mais recentes apontam impressionantes 6.000 sistemas em operação, inclusive em ETEs acima de 4.000 habitantes (Legeai et al., 2025 – fonte 3).

Figura 1: Gráfico da evolução da aplicação de “Sistema Francês” na França, (adaptado: Lombard-Latune & Molle, 2017 –  fonte 2) e 2 exemplos de sistema francês de grande e pequena escala na França.

Em resumo, o Sistema Francês é, sim, um wetland de dois estágios verticais, mas com funções, meios filtrantes e modos operacionais distintos. Onde não se aplicam as mesmas exigências da França, não é necessário replicar o modelo completo. Por outro lado, descrevê-lo como “wetland de dois estágios verticais” pode obscurecer sua verdadeira inovação: o 1º. estágio, que literalmente abriu uma nova escala de aplicação para os wetlands no tratamento de esgotos municipais. É justamente esse potencial que vamos analisar a seguir.

A inovação decisiva do “sistema Frances” foi a introdução do 1º. estágio, que elimina a necessidade de pré-tratamentos convencionais — geralmente anaeróbios, que além de gerar gases de efeito estufa, exigem remoção e manejo frequente do lodo acumulado. Além disso, em comparação a essas tecnologias, o 1º. estágio trata simultaneamente o lodo e o efluente, por meio de processos muito mais eficientes, predominantemente aeróbios.

 

2. Como a solução de Wetland “Sistema Francês” pode inspirar o Brasil

À medida que o Brasil avança rumo à universalização, cresce a atenção voltada às ETEs de pequeno porte (blog I decentral). As particularidades do esgoto coletado dessas situações — especialmente as variações na vazão (blog II decentral) — somadas à necessidade de manutenção simples, configuram um cenário que aponta fortemente para o uso de Soluções Baseadas na Natureza como alternativas viáveis e sustentáveis.

No entanto, uma diferença se destaca: no Brasil as ETEs de “pequeno porte” podem atender populações de até 10.000 habitantes (aproximadamente 20 L/s) — e, em alguns casos, até mais.

Ainda assim, a experiência francesa oferece uma solução plenamente viável, especialmente considerando que, no Brasil, tanto a área ocupada quanto o investimento necessário podem ser significativamente menores — dependendo de como se respondem dois fatores-chave:

Qual o nível de tratamento necessário?
Independentemente do clima, o 1º. estágio atende com folga às exigências da Resolução CONAMA 430/2011 e pode, inclusive, cumprir eventuais padrões estaduais mais rigorosos.

Qual é o impacto do clima quente?
Estudos de Mole et al. (2015 – fonte 4), em consonância com pesquisas realizadas no Peru (Höllmann et al, 2018 – fonte 5) e no Brasil (Sezerino & Pelissaria et al., 2021 – Fonte 6), demonstraram que o clima quente favorece os processos biológicos de forma que o 1º. estágio pode operar com apenas dois terços da área necessária em climas frios, mantendo ou até superando os níveis de eficiência.

Para fins de simplificação, passamos a adotar o termo “Filtro Francês” para nos referirmos a essa versão tropicalizada do 1º Estágio, conforme detalhado em um post anterior (blog Filtro Francês). Trata-se de uma adaptação sem caráter exclusivo, correspondente ao 1º Estágio com área reduzida e dividido em duas partes, em vez de três. Dependendo das exigências locais, pode ser aplicado como tratamento único ou integrado a arranjos distintos do “Sistema Francês” clássico.

A Figura 2 mostra um exemplo em que esse “Filtro Francês” foi combinado com o 2º. estágio “clássico”: o wetland vertical de areia, escolhido devido o reuso do efluente tratado neste caso.

Figura 2: Chincha, Peru; Sistema Francês implementado pela Rotaria em 2012: “Filtro Francês” combinado com Wetland de escorrimento vertical (Hoffmann et al., 2013 – fonte 7).

O alto desempenho do “Filtro Francês”, aplicado como estágio único, supera significativamente às exigências da Resolução CONAMA 430/2011. Em comparação com o “Sistema Francês” de 2 estágios, o “Filtro Francês” requer apenas entre 40% e 50% da área, o que o torna altamente competitivo no Brasil — inclusive para ETEs com vazões de até 20 L/s ou mais.

 

3. Até que VMP um estágio único do Filtro Francês é suficiente?

Estudos em escala real de Mole et al. (2005 – fonte 8) na França e de Lombard-Latune & Molle (2017 –  fonte 2) em climas tropicais, documentaram eficiências semelhantes entre 1º. estágio do Sistema Francês e o “Filtro Francês”: remoções de aproximadamente 80% de DBO e 85% de sólidos suspensos totais (SST). No entanto, a nitrificação, que na França fica abaixo de 50%, pode ser mais favorecida em climas quentes, chegando a 60 ou até 70% de eficiência.

Essas porcentagens, porém, referem-se a esgotos sanitários com concentrações típicas. Já demonstramos que ETEs de menor porte tendem a apresentar composições que divergem desse padrão (blog III decentral). Para prevenir a sobrecarga, é fundamental dimensionar o Filtro Francês com base nas cargas reais, conforme indicado na tabela da Figura 3. O parâmetro com a maior concentração deve ser considerado como fator determinante para o dimensionamento.

Outro aspecto importante é que as cargas na literatura geralmente se referem apenas à área “ativa” do Filtro Francês. Para evitar interpretações equivocadas, a Tabela da Figura 3 apresenta também as cargas por área total, considerando duas áreas que operam em regime alternado (3,5 ou 7 dias).

Figura 3: Parâmetros máximos de dimensionamento de Filtro Francês por Lombard-Latune & Molle (2017 – Fonte 2), aplicáveis para o Brasil (Sezerino & Pelissaria, 2021 – Fonte 6) e fotos de Filtro Francês da Sede da Rotária, seguida pelo Wetland de escoamento horizontal e vertical

Para otimizar o desempenho do Filtro Francês, duas medidas operacionais complementares têm se destacado, já aplicadas com sucesso também em clima quente (Fonte 2). Ambas as medidas podem favorecer, dentro de certos limites, os processos de nitrificação e desnitrificação, além de contribuir para a melhoria de parâmetros como turbidez e DBO:

  • A recirculação do efluente tratado (Morvannou et al., 2017 – Fonte 9), e
  • A operação com fundo saturado (Silveira et al., 2015 – Fonte 10).

Além disso, merece destaque a recente proposta de um modelo para otimização do dimensionamento do 1º estágio (Legeai et al., 2025 – fonte 3). Desenvolvido com base em dados de milhares de ETEs desse tipo na França, o modelo permite ajustar tanto a área necessária quanto a profundidade do leito, considerando a composição específica do afluente e os padrões de qualidade exigidos para o efluente.

É importante destacar que tanto o Filtro Francês em clima quente quanto o 1º estágio do Sistema Francês apresentam um limite natural de eficiência. Em situações que exigem desempenho ainda maior, nenhuma adaptação de projeto nem qualquer medida operacional pode substituir a necessidade de um estágio adicional ou de outras medidas complementares como explicaremos a seguir.

No tratamento de esgoto sanitário, o “Filtro Francês” operando como estágio único pode garantir remoções médias de 80% de DBO, 85% de SST e 60% nitrificação — sendo possível, em determinadas condições, alcançar eficiências ainda superiores. No entanto, não é possível atingir a remoção quase completa de DBO, SST, Nitrogênio Amoniacal e Nitrogênio total.

 

4. Exigências mais rigorosas: como complementar o Filtro Francês?

Com o foco crescente nas ETEs de pequeno porte, destaca-se um paradoxo no Brasil: justamente essas ETEs podem enfrentar as exigências ambientais mais rigorosas, especialmente quando lançam seus efluentes em corpos hídricos de baixa vazão e, muitas vezes, já com qualidade comprometida. Antes de aprofundarmos esse tema no próximo blog, analisaremos aqui, quais limites podem ser tecnicamente viáveis — com ênfase nos wetlands, que, justamente por sua robustez, têm se mostrado uma das soluções mais adequadas para a pequeno porte de ETEs.

Diferentemente da França, onde o foco está na nitrificação completa, as exigências variadas no Brasil demandam diferentes tecnologias de pós-tratamento para o “Filtro Francês”. Como alternativa ao wetland de escoamento vertical, destaca-se, por exemplo, o wetland horizontal. A Figura 4 resume, com base em pesquisa da UNALM (Lima, Peru), uma comparação entre as duas opções:

1. Wetland de fluxo vertical (WFV): Garante elevada eficiência aeróbia por meio de aeração “passiva”, viabilizada pelo substrato de areia grossa e pela alimentação intermitente. O modelo de dimensionamento baseado no balanço entre demanda e oferta de oxigênio (Platzer et al., 2017fonte 11) assegura, com base nas concentrações afluentes, a nitrificação e a oxidação completa de DBO.

2. Wetland de fluxo horizontal (WFH): Na versão com filtro de brita e operação saturada. Destaca-se pela melhoria de parâmetros como SST, turbidez, DBO e retenção de parasitas. Oferece potencial para a desnitrificação, mas apresenta baixa capacidade de nitrificação.

Figura 4: Filtro Francês como 1º estagio – combinado com 2º. Estagio em comparação: Wetlands de escoamento vertical e horizontal (Hoffmann et al., 2023, Fonte 12)

Antes de avaliar, vale destacar que os resultados da Figura 4 refletem condições ideais de uma planta piloto, com bombeamento controlado por volume e horário definidos. Servem para analisar o potencial, especialmente do Filtro Francês como 1º estágio, mas são pouco replicáveis na prática. Ainda assim, ilustram, por exemplo, o comportamento dos compostos de nitrogênio:

  • Filtro Francês, mesmo tratando esgoto com baixa carga de nutrientes (típica da região), alcançou apenas 50% de remoção do nitrogênio total. A nitrificação foi de 60%, com parte do nitrato gerado sendo posteriormente removida por desnitrificação ou outras perdas.
  • Wetland vertical (WFV), complementou a nitrificação e, mesmo sem fundo saturado, consegue remover boa parte do nitrato formado.
  • Wetland horizontal (WFH), teve contribuição quase nula para a remoção dos compostos de nitrogênio — não apresentou capacidade de nitrificação, e tanto a concentração de Nitrato quanto a de DBO remanescente do Filtro Francês eram insuficientes para criar condições anóxicas eficientes.

Conclusão: Se o objetivo for a retenção de ovos de helmintos — foco principal desta pesquisa —, ambos os tipos de wetlands são eficazes como pós-tratamentos do Filtro Francês. No entanto, para a remoção de Ntotal, a combinação entre o Filtro Francês e o WFV atinge cerca 80% de eficiência, enquanto o WFH, neste caso, não seria recomendado como estágio complementar.

Quando as exigências de qualidade do efluente superam o potencial do “Filtro Francês”, a escolha do pós-tratamento depende dos padrões a serem atendidos:

  • Para garantir a nitrificação completa, é necessário complementar o Filtro Francês com um wetland de escoamento vertical ou outra tecnologia aeróbia, como filtro percolador.
  • O wetland de escoamento horizontal pode melhorar as características do efluente do Filtro Francês para fins de reúso e ferti-irrigação, sendo uma alternativa às lagoas de maturação.
  • Limites rigorosos para Nitrato e Ntotal exigem configurações mais complexas, assim como em outras tecnologias com zonas anóxicas e oferta proporcional de uma fonte de carbono.

 

5. Espaço é limitado e exigências altas: wetlands ainda apresentam opção?

Embora a ocupação de área por habitante equivalente seja proporcionalmente menor em climas quentes, a limitação de espaço pode se tornar decisiva em ETEs que atendem a alguns milhares de habitantes. Adicionalmente, como mostrado no capítulo anterior, exigências rigorosas aumentam ainda a necessidade de área. Nestes casos, a adoção de wetlands com aeração forçada pode representar uma solução viável. A opção de aeração existe tanto para o tratamento de esgoto bruto (Rhizosph’AIR©), quanto para os wetlands de tratamento secundário, seja de escoamento vertical ou horizontal.

5.1 Rhizosph’AIR© – Tratamento de esgoto bruto com eficiência máxima em etapa única

O Rhizosph’AIR© (Figura 5.1) representa uma solução inovadora para situações em que se exige altíssimo desempenho de tratamento de esgoto bruto em etapa única. Trata-se de um sistema patenteado pelos nossos parceiros e integrantes da Global Wetland Technology (GWT) – ECOBIRD Syntea (França), Rietland (Bélgica) e Naturally Wallace (EUA).

Assim como o “Filtro Francês”, o Rhizosph’AIR© opera com alternância entre duas áreas, promovendo a retenção e o tratamento do lodo na superfície. A diferença fundamental está no leito filtrante, que opera de forma permanentemente saturada e recebe aeração forçada por sopradores (Figura 5.1).

Figura 5.1: Rhizosph`AIR©, patenteado pelas empresas ECOBIRD e outros membros de GWT.

A elevada eficiência apresentada na figura 5.1 — já observada nas 24 ETEs em operação com essa tecnologia e garantida pelos detentores da patente — depende de um controle rigoroso da aeração. Naturalmente, os custos operacionais (OPEX) são superiores aos do “Filtro Francês”. Ainda assim, permanecem abaixo dos OPEX de um reator SBR com desempenho equivalente, apresentaremos mais detalhes econômicos no próximo blog.

Em comparação com o ‘Filtro Francês’ operando como estágio único, o sistema Rhizosph’AIR© apresenta como principal vantagem uma maior eficiência, equivalente à de um sistema francês clássico, ou seja, de dois estágios verticais, podendo inclusive superá-lo.

 

5.2 Wetland aerados de tratamento secundário  

Mais antiga em termos de aplicação é a “intensificação” ou a aeração dos wetlands usados como tratamento secundário— ou seja, que recebem efluente já decantado ou pré-tratado. Aplica-se tanto em wetland de escoamento vertical quanto horizontal ou outros.

A Figura 5.2 ilustra um exemplo em que um wetland vertical (originalmente projetado com areia como meio filtrante) foi convertido em um wetland aerado. Nesse processo, o meio filtrante precisou ser substituído por brita ou outro material granular, de modo a permitir a adequada distribuição do ar.

Figura 5.2: Exemplos de wetlands aerados, realizados pela Rotária após pré-tratamentos convencionais, foram aplicados em situações com área limitada em relação à carga a tratar.

O wetland aerado, como tratamento secundário, apresenta potencial para aplicação em situações de ampliação de ETEs existentes, especialmente quando se exige a adoção de processos mais avançados, como a nitrificação do efluente de um reator UASB, por exemplo. Além disso, nos wetlands de escoamento horizontal implantados no Brasil — que muitas vezes utilizam brita como meio filtrante — a introdução de aeração pode representar uma oportunidade interessante de retrofit.

Para os wetlands de tratamento secundário, a aeração oferece como principal vantagem a menor ocupação de área, por não depender da introdução passiva de oxigênio. Isso também resulta em maior potencial para os processos aeróbios, especialmente quando comparados aos wetlands de escoamento horizontal.

 

6. E o Fósforo, o Wetland pode remover?

Diferentemente da remoção de nitrogênio, que pode ser alcançada por meio dos processos biológicos de nitrificação e desnitrificação, a remoção controlada de fósforo em wetlands depende da precipitação química. As quantidades de fósforo assimiladas pelas plantas ou retidas por certos componentes do meio filtrante — quando presentes — são extremamente reduzidas, além de não serem controláveis nem passíveis de dimensionamento técnico.

Figura 6: SC, Wetland de fluxo vertical de tratamento secundário, equipada com etapa de pós-precipitação para cumprir 4 mg Ptotal/L – projeto, execução (2009) e serviço de operação Rotária do Brasil.

A remoção de Fósforo a níveis elevados através de sistema Wetlands exige uma etapa de precipitação química, na maioria dos casos sendo realizada como pós- precipitação.

 

7. Atualizações sobre o potencial de Wetlands para o tratamento de esgoto municipal

A evolução das tecnologias de wetlands torna necessária uma atualização no esquema de classificação (Figura 7), especialmente no que se refere às etapas de tratamento primário e secundário, tema deste post. O objetivo é visualizar, para as soluções com maior difusão atual e comprovação em escala real, o seu posicionamento e seu potencial dentro da cadeia de tratamento, considerando a ampliação em larga escala. O tratamento de esgoto foi, de forma geral, classificado da seguinte maneira:
Primário: remoção de Sólidos e remoção parcial de DBO;
Secundário: remoção avançada de DBO e nitrificação completa;
Terciário: remoção “quase” completa de DBO e de Ntotal.

Figura 7: Tecnologias atuais de wetlands com maior potencial de aplicação em escala municipal, com destaque para seu posicionamento e potencial dentro da cadeia convencional de tratamento de esgoto.

  • O sistema Rhizosph’AIR, assim como o Filtro Francês, realiza o tratamento diretamente a partir do esgoto bruto, com demanda de área semelhante, necessária para o tratamento e a mineralização do lodo. No entanto, o Rhizosph’AIR alcança eficiências significativamente maiores no efluente tratado.

  • Entre as tecnologias do grupo “sub-superficial”, de tratamento secundário, há diferenças importantes na capacidade de promover processos aeróbios, com as seguintes implicações:
    • Quando comparado ao wetland de escoamento vertical (areia como meio filtrante), o wetland com aeração forçada ocupa menos área, mantendo um desempenho semelhante.
    • Em relação ao wetland de escoamento horizontal (seja com areia ou brita), a aeração proporciona não só economia de espaço, mas também um ganho expressivo em eficiência.

  • Os wetlands sub-superficiais dependem de um tratamento primário, que pode ser o próprio Filtro Francês ou outra tecnologia. A capacidade de retenção de lodo e a redução da carga orgânica nesse estágio inicial são fatores determinantes para o dimensionamento do wetland subsequente.

 

O avanço na aplicação das tecnologias de wetlands para o tratamento de esgoto municipal, ocorrido nas últimas três décadas — principalmente a partir da França  — consolidou soluções eficientes, capazes de atender, com relativamente baixo custo de operação, até mesmo a exigências rigorosas.

No Brasil, o clima favorável amplia ainda mais esse potencial, inclusive para ETEs com vazões de até 20 L/s ou mais. Apresentamos aqui as tecnologias com maior potencial de ampliação, já validadas em escala real e com bases de dimensionamento consolidadas. Para seu sucesso, no entanto, é essencial respeitar os limites dos processos e atender a pré-requisitos técnicos específicos.

 

Continuaremos mantendo vocês informados por meio dos nossos blogs. Em caso de interesse, dúvidas ou perguntas, entrem em contato conosco.

 

Fontes citadas, ordenada conforme menção no texto:

  1. Hoffmann, H.; Platzer C.; Von Münch, E.; Winker, M. e tradução Villafranca, B. (2011): Revisión Técnica de Humedales Artificiales de flujo subsuperficial para el tratamiento de aguas grises y aguas domésticas. Agencia de Cooperación Internacional de Alemania, GIZ (download, espanhol). Para a versão em inglês acesse a site de Sustainable Sanitation Alliance (SuSanA).

  2. Lombard-Latune, R. & Molle, P. (2017): Les filtres plantés de végétaux pour le traitement des eaux usées domestiques en milieu tropical, Guide de dimensionnement de la filière tropicalisée (2017), publication of IRSTEA Institute, Epure Lyon, France (original)
    Titulo em espanhol: Rémi Lombard-Latune, Pascal Molle. Humedales artificiales para el tratamiento de aguas residuales domésticas en zona tropical: Guía de dimensionamiento para zonas tropicales, 12/2017 (download, espanhol: Research Gate).
    Titulo em inglês: Rémi Lombard-Latune, Pascal Molle. Constructed wetlands for domestic wastewater treatment under tropical climate. 5/2021

  3. Legeai, Z.; Molle, P.; Tona, A.; Forquet, N. (2025): Regression-based design optimization of French treatment wetlands, Water Science & Technology (2025) 91 (11): 1248–1264

  4. Molle, P.; Lombard-Latune, C.; Riegel, R.; Lacombe, G.; Esser, D.; Mangeot, L. (2015): French vertical-flow constructed wetland design: adaptations for tropical climates. Water Science & Technology, IWA Publishing, 2015 p. 1516-1523

  5. Höllmann, M.; León, M. V. A.; Barjenbruch, M.; Hoffmann, H.; Platzer, C.; Miglio, T.R. (2018): Towards dimensioning guidelines for raw wastewater treatment in a single stage French System treatment wetlands in arid climate of Peru, IWA Wetland Conference, Oct.2018, Valencia, Spain (download paper)

  6. Sezerino P.H., Pelissaria, C. (organizadores) & vários autores (2021): Wetlands construídos como ecotecnologia para o tratamento de águas residuais: Experiências brasileiras (recurso eletrônico), 1.ed. Curitiba: Brazil Publishing, 2021. (free download, site GESAD/UFSC)

  7. Hoffmann, H.; Gamarra, J.; Villafranca, B.; Platzer C. (2013): Combinação de tratamento primário e secundário de esgoto em sistema de filtros plantados como solução decentralizada de alta eficiência e baixo custo operacional.  1º Simpósio Brasileiro sobre aplicação de Wetlands no tratamento de aguas residuais, GESAD, Florianópolis, SC, Brasil (download, paper

  8. Molle, P.; Lienard, A.: Boutin, C.: Merlin, G. and Iwema, A. (2005): How to treat raw sewage with constructed wetlands: an overview of the French systems, Water Science & Technology, Vol. 51; No. 9; pp 11–21, IWA Publishing 2005

  9. Morvannou, A.; Troesch, S.; Esser, D.; Forquet, N.; Petitjean, A.; Molle, P. (2017): Using one filter stage of unsaturated/saturated vertical f low filters for nitrogen removal and footprint reduction of constructed wetlands. Water Science & Technology (2017) 76 (1): 124–133.

  10. Silveira, D.D.; Belli F. P.; Philippia, L.S.; Kimb, B.; Molle, P. (2015): Influence of partial saturation on total nitrogen removal in a single-stage French constructed wetland treating raw domestic wastewater. Ecological Engineering, Vol. 77, April 2015, pp. 257-264

  11. Platzer, C.; Hoffmann, H, Miglio, R.M. (2016): Long term experiences with dimensioning and operation of vertical flow constructed wetlands in warm climate regions of South America, Proceeding 15. IWA Specialist Conference on Wetland Systems for Water Pollution Control), 2016. p. 868-887, 4-9/09/2016, Poland (download, paper original) – (download em portugues)

  12. Hoffmann, H.; Miglio, M.; Platzer, P.; Haiml, C. (2023): Wetland Frances: um componente promissor no caminho para a Universalização do Saneamento – Experiências de longo prazo, Encontro Técnico AESABESP, 34. Congresso Nacional de Saneamento e Meio Ambiente, SP, Brasil, 3 – 5/10/2023 (download, paper)

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